Relacionados

Podemos ter mais cidade

“A pandemia, genericamente, corrigiu velhas distorções nas cidades, sobretudo o facto negativo de haver ruas demais para a circulação de veículos motorizados. Vimos as cidades

Ver »

A cidade que muda com a Covid

“Nós, mulheres, deixamos de ir a alguns sítios para evitar que certas coisas (riscos) aconteçam. Autocensuramo-nos, limitamos os nossos movimentos na cidade, limitamos a nossa vida”, constatou a urbanista Inés Sánchez de Madariaga, na segunda das conversas do ciclo “Cidade que Abraça”, promovido Coletivo Zebra e pela Associação Corações com Coroa, no âmbito do Co-lab WALK MY CITY FREE.

O tema para este segundo dos cinco debates deste ciclo foi “Cidades que mudam com a covid”. Os dois convidados para este debate, transmitido em livestreaming e disponível em gravação, foram Inês Sánchez de Madariaga, professora na Universidade Politécnica de Madrid, onde dirige a cátedra UNESCO sobre Género, e Jorge Moreira da Silva, diretor de Coooperação e Desenvolvimento na OCDE, depois de também ter exercido funções dirigentes no PNUD na área da Economia de Energia e Alterações Climáticas, para além de ter integrado vários governos portugueses.

Ambos reconheceram que a covid está traz grandes mudanças que, ao mesmo tempo, são grande oportunidade para grandes mudanças, designadamente no planeamento e organização das cidades e dos bairros e na condição da mulher.

Este ciclo de conversas tem em fundo a liberdade da mulher para andar a pé. Jorge Moreira da Silva enunciou problemas que limitam essa liberdade às mulheres: “ruas pouco iluminadas, falta de policiamento em zonas críticas, riscos de assédio em zonas com escassas condições de segurança e proteção, etc.” Inés de Madariaga concorda, mas adverte que muito deste problema resulta de “perceção subjetiva”. Explicou: “Os dados estatísticos mostram que os ataques nas ruas têm muito mais como alvo os homens do que as mulheres, ao mesmo tempo que também se sabe que os ataques a mulheres sucedem muito mais em meio fechado, sobretudo em casa, do que na rua, e provocados na maioria dos casos por pessoas que têm ou tiveram uma relação com a mulher”. Porém essa “perceção subjetiva” existe e limita a liberdade da mulher na rua, sobretudo à noite.

Inés de Madariaga apontou cinco critérios que considera essenciais para o espaço público, e que decorrem de estudo aprofundado conduzido no Canadá:

  • Importa que a mulher veja e seja vista no lugar em que caminha;
  • Que ouça e possa ser ouvida;
  • Que tenha sempre zonas de escape;
  • Que a zona que atravessa seja limpa e acolhedora;
  • Que a comunidade esteja mobilizada para o bom cuidado e promova a educação e a consciencialização,

Jorge Moreira da Silva entende que é inevitável a transformação da cidade. Assume que “somos a última geração que cultiva o carro como objeto possuído, nosso”. Tem a noção de que o futuro vai ter mais eficiência, tanto energética como hídrica” e só assim a cidade pode ser sustentável perante a ameaça seguinte, muito mais perigosa e devastadora do que a desta pandemia: as alterações climáticas. Este perito em sustentabilidade não tem dúvida de que a covid acelera “a mudança de paradigma nas cidades”. Importa, insistiu que “as cidades deixem de ser como donuts com o centro esvaziado e as populações concentradas e acumuladas na zona envolvente”. Reconheceu que, “apesar de ser impopular”, vai ser preciso introduzir portagens e outras limitações à circulação intensiva de automóveis no centro das cidades e nos bairros residenciais. Reforçou: “É essencial apostar nos transportes públicos de qualidade, ciclovias e passeios amplos e confortáveis para andar a pé”.

Ambos cultivam o andar a pé. Inés de Madariaga caminha “pelo menos duas horas no dia-a-dia em Madrid”. Jorge Moreira da Silva consultou o marcador que tinha no pulso: “hoje já fiz 11 mil passos”.

Reveja o livestream de 10 de setembro aqui

Calendário das próximas conversas do ciclo Cidade que Abraça:

  • 14 de setembro – Podemos ter mais cidade
  • 16 de setembro – Urbanismo com Perspetiva de Género
  • ‬‪21 de setembro – Emoções Urbanas

14 de setembro: Podemos ter mais cidade
Participantes:

Letícia Leda Sabino, investigadora especializada em design urbano e planeamento de cidades, com foco na “walkability”. Ativista da “cidade Humana” e fundadora e dirigente do SampaPé, ONG promotora da mobilidade urbana, com sede em São Paulo
Pedro Homem de Gouveia, Senior Policy and Project Manager, Governance & Integration + Safety & Security na Polis Network, em Bruxelas. Foi coordenador da equipa do Plano de Acessibilidade Pedonal de Lisboa.
Moderador: Frederico Raposo, jornalista na revista Smart Cities.

16 de setembro: Urbanismo com Perspetiva de Género
Participantes:
Adriana Souza, mestre e atualmente doutoranda pela UnB (Universidade de Brasília) no Programa de Pós-graduação em Transportes do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental e, investigadora no Centro de Estudos Internacionais do ISCTE -Instituto Universitário de Lisboa com foco na Mobilidade a Pé na perspetiva da Mulher no Brasil e em Portugal.
Blanca Valdivia, membro do Col-Lectiu Punt 6 (Barcelona), é socióloga e urbanista dedicada à qualidade urbana sob uma perspetiva feminista.
Moderadora: Patrícia Santos Pedrosa, arquitecta, CIEG e Associação Mulheres na Arquitectura

21 de setembro: Emoções Urbanas
Participantes:
Sónia Lavadinho, antropóloga e geógrafa, investigadora sobre evolução de modos de vida e das mobilidades. Fundadora e líder da BFluid, em Genebra.
Filipa Matos Wunderlich, leciona Desenho Urbano e dirige o mestrado de investigação Desenho Urbano Interdisciplinar na Bartlett School of Planning, University College de Londres.
Moderadora: Sandra Moutinho, presidente do Coletivo ZEBRA


‪O Co-Lab Walk My City Free resulta de uma parceria entre o Coletivo Zebra, a Associação Corações Com Coroa, a Inland Norway University of Life Sciences e o Norway’s Institute of Transport Economics . Este projeto é cofinanciado pelos EEA Grants.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Share on email

Mais Artigos